E hoje amanheceu um dia ensolarado. E quente. E eu não sei porque, mas ainda me surpreendo com a felicidade que sinto quando faz sol. Mais, muito mais do que sentirei em qualquer dia nublado. Porque parece que só o fato do céu estar azul e o sol estar brilhando já me faz sorrir.
No mais, deve ser também porque hoje é sexta feira, eu tenho uma aula mega legal daqui a pouco e sou finalmente uma pessoa empregada.
Mas isso tudo num dia nublado definitivamente não teria o mesmo efeito.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
terça-feira, 25 de agosto de 2009
"...a mentira e a verdade, a solidão e a cidade..."
Enquanto via o caminho passar, abri a janela e deixei o vento bater. Ele vinha gelado, muito gelado e chegava a doer, chegava a ser difícil respirar. Mas eu deixei, e vim pensando na vida. A música me confortava enquanto a paisagem passava correndo. Eu tentei olhar os prédio, as árvores, mas a velocidade impedia. A cada sinal eu observava o lugar onde estava e as pessoas que nele que se encontravam. Idosos, casais, crianças, toda uma sorte de gente absorta em seus próprios pensamentos. Mergulhadas o suficiente pra não ver mais ninguém ao redor.
Engraçado como vivemos nossas vidas, sempre pro lado de dentro. E a pessoa do meu lado poderia ser alguém que sofre. Alguém com problemas, precisando de um ombro pra chorar. E eu poderia ser esse ombro, mas não: Eu também estava mergulhada demais no meu próprio mundo, o suficiente pra nem lembrar se quem sentou do meu lado era homem ou mulher.
A tecnologia nos afasta. No tempo dos bondes haviam os amigos do bonde, aquelas pessoas que andavam com você todo dia, e com as quais sempre se trocava um "dedinho de prosa". Mesmo com o surgimento dos ônibus, ainda haviam amigos, aqueles que pegavam todo dia no mesmo horário, com o mesmo motorista e trocador. E nisso aconteciam amizades verdadeiras, paqueras, flertes. Acontecia a vida e um afastamento da solidão.
Daí veio o walkman. E o discman. E o ipod (e toda a gama de mp3-players disponíveis no mercado). E agora as pessoas entram nos meios de transporte imersas no seu mundo particular, saem e não falam com ninguém. E agora você pode passar por uma pessoa centenas de vezes na rua sem nem reparar na sua existência, até um dia conhecê-la numa comunidade do orkut, e se espantar ao saber que passam todo dia pelo mesmo lugar.
O mundo moderno é solitário. E ele dá vazão a solidão inerente ao ser humano. Porque de alguma maneira todos nós somos solitários sim, mesmo quem acha que não é. Todo mundo tem um mundo pra dentro e outro pra fora. E os dias de hoje fazem viver cada vez mais pra dentro, ter longas conversas sem abrir a boca, ter vários amigos que você não pode abraçar e chorar junto.
Mas você chora com eles a distância, e se sente bem assim mesmo. Foi comprovado numa pesquisa recente que as amizades pela internet são tão benéficas quanto as reais, e que idosos que fazem parte de redes virtuais vivem mais do que os que não fazem. Isso é bom mas, e daqui a 10 anos? Vai ser o fim do contato físico? Da conversa na mesa de bar? Como disse Jesús Martín-Barbero, é a utopia da internet, de que todos somos iguais e estamos juntos. Não somos e não estamos. Como ele mesmo disse, a internet só nos põe em contato. O contato é bom e nos dá a sensação de não estarmos sozinhos: Na internet só nos juntamos com quem gosta do mesmo que nós, temos assunto. O que muitas vezes não acontece no "mundo real". Nele você tem que aprender a conviver com as diferenças, ser amigo acima dos gostos particulares e criar desenvoltura social.
E algum dia alguém resolveu que isso não era bom.
Não condeno a internet, se não fosse ela eu não estaria aqui agora. Se não fosse ela, eu não conheceria alguns dos meus melhores amigos. Nem meu namorado eu conheceria. Mas ainda assim, acho que o uso desenfreado de coisa alguma é benéfico, muito menos dela. Ser humano e seu maior problema: A falta de limites.
Engraçado como vivemos nossas vidas, sempre pro lado de dentro. E a pessoa do meu lado poderia ser alguém que sofre. Alguém com problemas, precisando de um ombro pra chorar. E eu poderia ser esse ombro, mas não: Eu também estava mergulhada demais no meu próprio mundo, o suficiente pra nem lembrar se quem sentou do meu lado era homem ou mulher.
A tecnologia nos afasta. No tempo dos bondes haviam os amigos do bonde, aquelas pessoas que andavam com você todo dia, e com as quais sempre se trocava um "dedinho de prosa". Mesmo com o surgimento dos ônibus, ainda haviam amigos, aqueles que pegavam todo dia no mesmo horário, com o mesmo motorista e trocador. E nisso aconteciam amizades verdadeiras, paqueras, flertes. Acontecia a vida e um afastamento da solidão.
Daí veio o walkman. E o discman. E o ipod (e toda a gama de mp3-players disponíveis no mercado). E agora as pessoas entram nos meios de transporte imersas no seu mundo particular, saem e não falam com ninguém. E agora você pode passar por uma pessoa centenas de vezes na rua sem nem reparar na sua existência, até um dia conhecê-la numa comunidade do orkut, e se espantar ao saber que passam todo dia pelo mesmo lugar.
O mundo moderno é solitário. E ele dá vazão a solidão inerente ao ser humano. Porque de alguma maneira todos nós somos solitários sim, mesmo quem acha que não é. Todo mundo tem um mundo pra dentro e outro pra fora. E os dias de hoje fazem viver cada vez mais pra dentro, ter longas conversas sem abrir a boca, ter vários amigos que você não pode abraçar e chorar junto.
Mas você chora com eles a distância, e se sente bem assim mesmo. Foi comprovado numa pesquisa recente que as amizades pela internet são tão benéficas quanto as reais, e que idosos que fazem parte de redes virtuais vivem mais do que os que não fazem. Isso é bom mas, e daqui a 10 anos? Vai ser o fim do contato físico? Da conversa na mesa de bar? Como disse Jesús Martín-Barbero, é a utopia da internet, de que todos somos iguais e estamos juntos. Não somos e não estamos. Como ele mesmo disse, a internet só nos põe em contato. O contato é bom e nos dá a sensação de não estarmos sozinhos: Na internet só nos juntamos com quem gosta do mesmo que nós, temos assunto. O que muitas vezes não acontece no "mundo real". Nele você tem que aprender a conviver com as diferenças, ser amigo acima dos gostos particulares e criar desenvoltura social.
E algum dia alguém resolveu que isso não era bom.
Não condeno a internet, se não fosse ela eu não estaria aqui agora. Se não fosse ela, eu não conheceria alguns dos meus melhores amigos. Nem meu namorado eu conheceria. Mas ainda assim, acho que o uso desenfreado de coisa alguma é benéfico, muito menos dela. Ser humano e seu maior problema: A falta de limites.
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
1 ano.
Um ano e eu não sei o que dizer pra homenagear minha vó. As vezes parece que a qualquer momento o telefone vai tocar e vai ser ela me mandando colocar em algum canal e assistir o que está passando.
Ela me ensinou a costurar (ao menos tentou..rs..), bordar, tricotar. Ela me desafiava com palavras difíceis da língua portuguesa, só pra ver se eu sabia o que significavam. Ela me deixava fazer as palavras cruzadas do jornal junto com ela, embora soubesse que eu não saberia quase nada. Ela me chamava pra falar sobre política, moda, maquiagem. Me contava de antigamente, e me ensinava coisas que ninguém hoje em dia saberia ensinar: como cortar um godê completo, como usar laquê, como colocar bobes no cabelo. Ela me ajudava na maioria dos meus trabalhos de escola, e era extremamente inteligente: Falava inglês, francês, latim, tinha boas noções de espanhol e italiano. Entendia de história, entendia de tudo. Impossível conversar com a minha vó sobre algum assunto que ela não soubesse. Até sobre informática, mesmo nunca chegando perto do computador, ela sabia conversar.
Meu tio diz que minha vó não construiu nada na vida. Morreu sem patrimônio material, é verdade, mas ela construiu muito sim. Por causa dela existe minha mãe, logo, por causa dela eu existo. Grande parte da minha bagagem cultural devo a ela, e a ela devo meu romantismo exacerbado e a vontade enorme de manter todos por perto. Porque mesmo no desgosto que ela teve, me ensinou alguma coisa: Que o amor é a coroa que faz de um homem um rei. E que da vida é só isso que se leva, o amor que a gente planta.
Com tudo, minha vó foi feliz. E pra mim hoje é só isso que importa.
Ela me ensinou a costurar (ao menos tentou..rs..), bordar, tricotar. Ela me desafiava com palavras difíceis da língua portuguesa, só pra ver se eu sabia o que significavam. Ela me deixava fazer as palavras cruzadas do jornal junto com ela, embora soubesse que eu não saberia quase nada. Ela me chamava pra falar sobre política, moda, maquiagem. Me contava de antigamente, e me ensinava coisas que ninguém hoje em dia saberia ensinar: como cortar um godê completo, como usar laquê, como colocar bobes no cabelo. Ela me ajudava na maioria dos meus trabalhos de escola, e era extremamente inteligente: Falava inglês, francês, latim, tinha boas noções de espanhol e italiano. Entendia de história, entendia de tudo. Impossível conversar com a minha vó sobre algum assunto que ela não soubesse. Até sobre informática, mesmo nunca chegando perto do computador, ela sabia conversar.
Meu tio diz que minha vó não construiu nada na vida. Morreu sem patrimônio material, é verdade, mas ela construiu muito sim. Por causa dela existe minha mãe, logo, por causa dela eu existo. Grande parte da minha bagagem cultural devo a ela, e a ela devo meu romantismo exacerbado e a vontade enorme de manter todos por perto. Porque mesmo no desgosto que ela teve, me ensinou alguma coisa: Que o amor é a coroa que faz de um homem um rei. E que da vida é só isso que se leva, o amor que a gente planta.
Com tudo, minha vó foi feliz. E pra mim hoje é só isso que importa.
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
x_x
Hoje tive um dia estranho, muito estranho. Em alguns momentos parecia que minha cabeça estava parando de funcionar, eu não conseguia raciocinar e a visão ficava turva, manchada.
Odeio a sensação de querer chegar logo em casa e ter que aguentar tempos no ônibus, dar voltas e voltas, e gastar o dobro (senão o triplo) do tempo que eu gastaria se houvesse um meio de voltar direto. Chega a me dar falta de ar quando olho pela janela e vejo que ainda estou muito longe, quando tudo que eu queria era estar passando do portão, tirando os sapatos e andando calmamente pelo quintal.
Tem dias em que me sinto muito urbana. Dias em que me sinto completamente parte da cidade grande, das ruas, dos prédios. Dias em que até o barulho do trânsito parece parte de mim, e vou caminhando feliz pela rua, levada pela multidão.
Mas hoje não. Hoje não foi um desses dias. Hoje foi um dos dias em que tudo que eu queria era ficar descalça, deitar na grama, correr com os braços pro alto gritando, rolar no chão e ficar olhando o sol. É como diz a música do Strokes, "Veja, estou preso na cidade, mas pertenço ao campo". Talvez a solução de tudo se dê quando eu largar essa vida pra trás e for morar no mato. só pode.
Odeio a sensação de querer chegar logo em casa e ter que aguentar tempos no ônibus, dar voltas e voltas, e gastar o dobro (senão o triplo) do tempo que eu gastaria se houvesse um meio de voltar direto. Chega a me dar falta de ar quando olho pela janela e vejo que ainda estou muito longe, quando tudo que eu queria era estar passando do portão, tirando os sapatos e andando calmamente pelo quintal.
Tem dias em que me sinto muito urbana. Dias em que me sinto completamente parte da cidade grande, das ruas, dos prédios. Dias em que até o barulho do trânsito parece parte de mim, e vou caminhando feliz pela rua, levada pela multidão.
Mas hoje não. Hoje não foi um desses dias. Hoje foi um dos dias em que tudo que eu queria era ficar descalça, deitar na grama, correr com os braços pro alto gritando, rolar no chão e ficar olhando o sol. É como diz a música do Strokes, "Veja, estou preso na cidade, mas pertenço ao campo". Talvez a solução de tudo se dê quando eu largar essa vida pra trás e for morar no mato. só pode.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Provocação?
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
=/
Certas coisas sempre retornam, e eu não sei conviver bem com elas. Como essa sensação de inquietação que as vezes sinto. Fico batendo o pé no chão involuntariamente, enquanto fumo um cigarro atrás do outro e meus pensamentos correm soltos e acelerados. A sensação de inutilidade que me dá, de despertencimento. A sensação de que sempre falta alguma coisa que eu nunca descubro o que é.
Talvez eu devesse continuar ignorando isso tudo. Talvez continuasse sendo fácil ser uma pessoa fácil. Mas não continua, e esse é o ponto. Parece que tem sempre uma explosão acontecendo dentro de mim, pronta pra sair pela minha boca a qualquer momento. Parece que tudo de errado tem a ver comigo, que tudo é culpa e problema meu. Parece que eu não acredito em nada e nem ninguém, e que nada nem ninguém acredita em mim. Parece as vezes que fica um choro preso na garganta, querendo sair e lavar meus olhos das mágoas e frustrações que eu passei.
Porque de alguma maneira, elas sempre retornam. Retornam e me fazem sentir estúpida por perceber que ainda me doem em certos pontos, e ainda atrapalham o que sou agora. O tempo que eu perdi me assombra, me persegue. Eu deveria estar indo pro último período agora. Eu deveria ter sonhos normais e banais como toda a população. Eu deveria aceitar o ônibus ruim e o asfalto esburacado. Eu deveria me vestir sem pensar. Eu deveria dizer o que sinto a minha família. Eu deveria pôr pra fora o abandono que sinto todo dia, e a sensação de estar sempre prestes a ser deixada pra trás.
Daí o dia começa, e é sempre mais fácil ser aquela que sorri. Aquela que leva tudo na banalidade, e cria problemas idiotas na cabeça, pra deixar os que realmente assombram bem guardados. Ninguém sabe o que me assombra. Ninguém sabe o que me assusta. Ninguém sabe o que se passa na minha cabeça, e eu simplesmente não consigo contar. Quando as pessoas mais próximas não te inspiram a confiança que deveriam, parece ficar sempre meio impossível confiar nas que vem de fora. E mesmo que eu acredite que consigo, sempre fica um sentimento não falado, uma tristeza não compartilhada.
Eu me sinto assim hoje. Me sentia assim a 10 anos atrás. Eu me sentia assim a 15 anos atrás. Acho que sempre me senti assim. Sempre me senti não querida, persona non grata na vida. Todos os meus colegas de escola eram banais e felizes, e eu invejava essa felicidade. Invejava porque desde cedo eu nunca senti. Não fui uma criança feliz, com pensamentos de criança feliz. Eu não conseguia achar que problema era decidir entre brincar de pique pega ou pique esconde. Com 7 anos tudo que eu desejava era que o domingo nunca chegasse, pra não ver minha mãe apanhando e ter que me trancar no quarto até tudo acabar. Com 9 anos tudo que eu desejava era não ser a idiota que não sabia de nada. Com 11 anos tudo que eu desejava era ser comum. Com 13 tudo que eu desejava era que meu padrasto morresse. Com 15 tudo eu que desejava era ir embora de casa. Com 17 tudo que eu desejava era minha velha vida de volta. Com 18 tudo que eu desejava era que minha mãe não odiasse meu namorado. Com 19 tudo que eu desejava era que minha vó não morresse.
Agora tenho 20 anos. Pela primeira na vida eu consigo acordar e sorrir. Eu consigo acordar e agradecer pelas mudanças. Porque pela primeira vez na vida eu tive coragem de não me acomodar. Pela primeira vez na vida eu falei o que pensava, eu fiz o que queria. Eu deveria estar agora dormindo e sonhando com as coisas boas que tem acontecido.
Mas não, estou aqui. Estou aqui e coloquei as coisas boas num pacote em cima da estante, eu tirei elas da cabeça por meia hora, pra pensar nessas coisas ruins, nesses fantasmas. Eu peguei as coisas boas e deixei elas pra amanhã, e eu não fazia isso a meses.
Não gosto de parar pra pensar. A ignorância é uma benção. Eu queria sim ser comum, ser normal. Estar agora vendo tudo cor de rosa e levando as coisas. Mas eu estou condenada a esse mar de braços, puxando minhas pernas pra baixo e insistindo em tirar minha cabeça do mundo da lua. Eu estou fadada ao retorno.
Minha mãe diz que estou fadada ao fracasso. Ela não sabe o quanto me magoa quando diz isso. Ela não sabe e eu não digo. Porque se eu falar, ela vai me dizer que diz isso da boca pra fora. Mas ela não entende que o que é dito da boca pra fora também machuca, também ofende.
No final eu acredito que estou fadada a algo menos pesado que o fracasso. E tento acreditar não estar assim tão condenada. Mas é difícil, tão difícil. Quando tudo parece perfeito, sempre tem um alfinete pra espetar o pé.
Talvez esse seja o mau de andar descalça.
Talvez eu devesse continuar ignorando isso tudo. Talvez continuasse sendo fácil ser uma pessoa fácil. Mas não continua, e esse é o ponto. Parece que tem sempre uma explosão acontecendo dentro de mim, pronta pra sair pela minha boca a qualquer momento. Parece que tudo de errado tem a ver comigo, que tudo é culpa e problema meu. Parece que eu não acredito em nada e nem ninguém, e que nada nem ninguém acredita em mim. Parece as vezes que fica um choro preso na garganta, querendo sair e lavar meus olhos das mágoas e frustrações que eu passei.
Porque de alguma maneira, elas sempre retornam. Retornam e me fazem sentir estúpida por perceber que ainda me doem em certos pontos, e ainda atrapalham o que sou agora. O tempo que eu perdi me assombra, me persegue. Eu deveria estar indo pro último período agora. Eu deveria ter sonhos normais e banais como toda a população. Eu deveria aceitar o ônibus ruim e o asfalto esburacado. Eu deveria me vestir sem pensar. Eu deveria dizer o que sinto a minha família. Eu deveria pôr pra fora o abandono que sinto todo dia, e a sensação de estar sempre prestes a ser deixada pra trás.
Daí o dia começa, e é sempre mais fácil ser aquela que sorri. Aquela que leva tudo na banalidade, e cria problemas idiotas na cabeça, pra deixar os que realmente assombram bem guardados. Ninguém sabe o que me assombra. Ninguém sabe o que me assusta. Ninguém sabe o que se passa na minha cabeça, e eu simplesmente não consigo contar. Quando as pessoas mais próximas não te inspiram a confiança que deveriam, parece ficar sempre meio impossível confiar nas que vem de fora. E mesmo que eu acredite que consigo, sempre fica um sentimento não falado, uma tristeza não compartilhada.
Eu me sinto assim hoje. Me sentia assim a 10 anos atrás. Eu me sentia assim a 15 anos atrás. Acho que sempre me senti assim. Sempre me senti não querida, persona non grata na vida. Todos os meus colegas de escola eram banais e felizes, e eu invejava essa felicidade. Invejava porque desde cedo eu nunca senti. Não fui uma criança feliz, com pensamentos de criança feliz. Eu não conseguia achar que problema era decidir entre brincar de pique pega ou pique esconde. Com 7 anos tudo que eu desejava era que o domingo nunca chegasse, pra não ver minha mãe apanhando e ter que me trancar no quarto até tudo acabar. Com 9 anos tudo que eu desejava era não ser a idiota que não sabia de nada. Com 11 anos tudo que eu desejava era ser comum. Com 13 tudo que eu desejava era que meu padrasto morresse. Com 15 tudo eu que desejava era ir embora de casa. Com 17 tudo que eu desejava era minha velha vida de volta. Com 18 tudo que eu desejava era que minha mãe não odiasse meu namorado. Com 19 tudo que eu desejava era que minha vó não morresse.
Agora tenho 20 anos. Pela primeira na vida eu consigo acordar e sorrir. Eu consigo acordar e agradecer pelas mudanças. Porque pela primeira vez na vida eu tive coragem de não me acomodar. Pela primeira vez na vida eu falei o que pensava, eu fiz o que queria. Eu deveria estar agora dormindo e sonhando com as coisas boas que tem acontecido.
Mas não, estou aqui. Estou aqui e coloquei as coisas boas num pacote em cima da estante, eu tirei elas da cabeça por meia hora, pra pensar nessas coisas ruins, nesses fantasmas. Eu peguei as coisas boas e deixei elas pra amanhã, e eu não fazia isso a meses.
Não gosto de parar pra pensar. A ignorância é uma benção. Eu queria sim ser comum, ser normal. Estar agora vendo tudo cor de rosa e levando as coisas. Mas eu estou condenada a esse mar de braços, puxando minhas pernas pra baixo e insistindo em tirar minha cabeça do mundo da lua. Eu estou fadada ao retorno.
Minha mãe diz que estou fadada ao fracasso. Ela não sabe o quanto me magoa quando diz isso. Ela não sabe e eu não digo. Porque se eu falar, ela vai me dizer que diz isso da boca pra fora. Mas ela não entende que o que é dito da boca pra fora também machuca, também ofende.
No final eu acredito que estou fadada a algo menos pesado que o fracasso. E tento acreditar não estar assim tão condenada. Mas é difícil, tão difícil. Quando tudo parece perfeito, sempre tem um alfinete pra espetar o pé.
Talvez esse seja o mau de andar descalça.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
tic tac
A hora do blog está louca e eu não sei consertar. São na verdade uma e vinte e três da manhã, já é segunda feira e eu vou dormir.
Quando acordar essa criatividade louca vai ter passado, e eu vou voltar ao normal, deixando tudo com um pouco menos de sal.
Talvez me falte tempero de vez em quando. Talvez falte ousadia, mas eu tenho um problema sério: Eu preciso de empurrões pra colocar a loucura pra fora.
Senão vou acabar como a água.
Insípida. Inodora. Incolor com o tempo.
Quando acordar essa criatividade louca vai ter passado, e eu vou voltar ao normal, deixando tudo com um pouco menos de sal.
Talvez me falte tempero de vez em quando. Talvez falte ousadia, mas eu tenho um problema sério: Eu preciso de empurrões pra colocar a loucura pra fora.
Senão vou acabar como a água.
Insípida. Inodora. Incolor com o tempo.
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