segunda-feira, 10 de agosto de 2009

tic tac

A hora do blog está louca e eu não sei consertar. São na verdade uma e vinte e três da manhã, já é segunda feira e eu vou dormir.

Quando acordar essa criatividade louca vai ter passado, e eu vou voltar ao normal, deixando tudo com um pouco menos de sal.

Talvez me falte tempero de vez em quando. Talvez falte ousadia, mas eu tenho um problema sério: Eu preciso de empurrões pra colocar a loucura pra fora.

Senão vou acabar como a água.

Insípida. Inodora. Incolor com o tempo.
E vai chegar, parar, olhar. Vai chegar sem falar nada e tomá-la nos braços. Vai tomar. Beber do corpo como fosse fonte no deserto. Sedento, insaciável. Vai esvaziar, até a última gota. Vai também ficar vazio, pois ela vai beber tão vorazmente quanto. Vão trocar então, e fica assim.

E eles vão e vão, sem fim. E o vão existente entre tais pessoas será agora invisível. O desejo sera palpável e vai pairar denso pelo ar. E ficarão febris, tomados pela vontade incondicional que os cerca. E as mãos passearão. E as unhas cravadas vão provocar marcas, caminhos por elas percorridos. E as pernas presas, impedindo qualquer movimento de libertação, vão tornar o vão ainda mais invisível.

E qualquer parte será sensível ao toque. E cada centímetro descoberto provocará espasmos incontroláveis. Os pensamentos vão sair pelos ouvidos, enquanto entram gemidos. Inertes permanecerão, ao fim. E o fim vai parecer eterno por alguns instantes.

E vai chegar, parar, olhar. Vai ficar olhando e imaginando como seria. Vai sorrir e passar, como passam os amantes por seus amores não concretizados.

Ficar louco é se desprender

Ficar louco é se desprender. Você está no meio da rua, um sol de 40 graus, uma multidão de gente suada e tensa esbarrando em você, que tenta ignorar com a música aos berros nos ouvidos. Você vai andando devagar, enquanto a velocidade ao redor tenta inutilmente te levar. A vontade de gritar cresce por dentro. Mas você não grita, você engole o ódio, porque sabe que gritar seria loucura.

Ficar louco é se desprender. Você está no shopping num dia de domingo. As pessoas passam olhando as vitrines que mostram a última moda. Você está feliz, é domingo, o dia vai embora do lado de fora enquanto desperdiça suas preciosas horas olhando vitrines com coisas que você não vai comprar. É domingo e você sente vontade de parar e dançar, ali mesmo, no meio da praça de alimentação. Mas você não dança, porque sabe que dançar seria loucura.

Ficar louco é se desprender. Você está na aula, inquieto. A professora velha e feia fala as palavras como quem vomita após uma boa bebedeira: Involuntariamente. Ela repete a mesma aula massante a anos, e não se importa nem um pouco com a sua falta de interesse. Você cochila, e quando acorda ela fala olhando nos seus olhos. Aquelas palavras já não dizem nada, pois seu estado de letargia é tamanho que mesmo uma história infantil pareceria o mais complicado dos assuntos. Você sente vontade de estrangular a professora, pra que ela perceba ao menos que ainda está viva. Mas você não estrangula, pois além de loucura seria crime.

Ficar louco é se desprender. Você está no supermercado junto com uma porção de donas de casa desocupadas e mal comidas. Elas largam o carrinho em qualquer lugar, impedindo a passagem, e lhe respondem grosseiramente quando pede gentilmente que o retirem. Você está no supermercado e a fila do queijo não anda porque a velhinha na frente ignora o fato de existirem outras pessoas, e não decide se quer meio queijo ou um queijo inteiro. Você está lá e o atendente do açougue te informa que não pode moer a carne que você escolher. Você tem que levar aquela carne moída processada e estranha. Sua real vontade é jogar a bandeja de carne na cara do atendente. Gritar furiosamente enquanto corre derrubando todos os carrinhos no caminho. Se jogar em cima da pilha de cebolas podres que eles vendem ali. Mas você sorri. Você sorri e pensa "lugar de ser feliz não é supermercado". Porque ter qualquer outra atitude furiosa seria loucura, e você não quer que pensem que é louco.

Ficar louco é se desprender. E ninguém se desprende. O cidadão comum demora muito hoje em dia pra entrar em colapso. Melhor, ele entra. Ele entra e guarda tudo por dentro. Ninguém coloca nada pra fora e essa é a real loucura. Ficar louco é se desprender, e se desprendendo se fica em paz. Se você não liga pro exterior, ele não te faz mal, não afeta.

Mas ninguém quer ficar louco.
As vezes eu não acredito na minha inteligência e capacidade. Nesses dias, acho todo mundo mais inteligente e capaz que eu, e por vezes acredito mesmo que eu não vá dar em nada.

Eu paro e analiso, e coloco tudo que vem de mim pra baixo. Julgo meus textos um grande bolo de merda. Julgo meus pensamentos idiotas e infantis. Julgo minhas atitudes um lixo, e penso que não me esforço o suficiente, que não acredito o suficiente.

É ruim e difícil viver assim. É ruim e eu não aguento mais, por isso eu não vou mais fazer. Eu cansei. Cansei de me olhar e enxergar uma pessoa burra e vazia, uma pessoa que na verdade não existe. Eu não sou burra. Eu não sou vazia. Não é falta de humildade acreditar em si mesmo, e eu não entendo porque isso nunca entra na minha cabeça.

A grande diferença mora em saber dividir o "acreditar em si mesmo" do "se achar melhor que os outros". E foi isso que eu não soube fazer durante muito tempo. Ou eu me achava a pior merda ambulante da face da terra, ou me achava o último ser humano inteligente. Besteira, não sou uma coisa nem outra. Sou uma mulher com defeitos e virtudes, como qualquer uma. Sei mais sobre alguns assuntos, sei pouco sobre outros e sobre terceiros não sei nada. Tenho 20 anos e um mundo pela frente. Existem pessoas infinitamente mais cultas do que eu, e outras infelizmente bem menos. Sobre as mais cultas, desejo a chance do convívio e do aprendizado. Pras menos desejo sinceramente que tenham oportunidade de ir além.

Estava mesmo muito desacreditada até alguns meses atrás. Chegar a 130 quilos, fazendo uma faculdade que eu odiava e namorando um cara que era um merda definitivamente não podia ter feito bem a minha cabeça. Por sorte sempre existirão: atitude, dieta, mãe, espelho, amigos, bebida, o sol, o céu e o mar. Pra tudo existe solução e tudo tem volta, menos a morte. Eu estava desacreditada porque me deixei desacreditar, e isso reflete na minha vida até hoje. Aliás, reflete não. Ecoa. O eco vai ficando cada vez mais fraco e cada vez mais esporadicamente eu me sinto mal.

Talvez lendo o início do texto, eu dê a entender que esse é um dos já raros dias em que me sinto um lixo. Mas não, não é. Hoje eu escrevo isso tudo por estar acreditando plenamente em mim. Das coisas que tenho feito, nenhuma deu errado. Eu tenho um profissional reconhecido da área que quero seguir que acredita em mim e no meu potencial. Eu tenho um curso a fazer, para o qual fui selecionada por mérito próprio. Eu tenho planos, metas, sonhos. Eu tenho e eu estou seguindo.

Eu andei, e as vezes nem acredito.

I want to love you MADLY.

"when i kiss your lips
i want to sink down
to the bottom of the sea

i want to love you madly
i want to love you now (yeah)
i want to love you madly (wait)
i want to love you, love you, love you madly"
Love you madly - Cake

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Hoje passei o dia como se tivesse uma mão em cima da minha cabeça, empurrando ela pra baixo. Sinto a sensação do sono, mas não tenho sono. Eu deito e não consigo dormir. Sinto um peso nas minhas costas, como se estivesse carregando uma mochila cheia de pedras. Mas não carrego nada.

Talvez os acontecimentos do dia tenham me abatido um pouco, não sei. Talvez eu sinta que algo vem, algo imprevisível, algo fora de controle. E se ela realmente morresse? E se ela não vai, seria capaz de colocar isso na minha cabeça por puro drama? Seria ela capaz de tamanha crueldade comigo? A madrinha é meio perturbada, mas não acredito que seria capaz.

Daqui a 14 dias faz um ano que a minha vó morreu. Um ano sem ligações durante todo o dia, sem passeios ao brechó, sem ir a casa dela só pra não vir pra casa. Um ano sem brigas, sem histórias, sem ter a quem perguntar sobre laquê e costura. Um ano sem ninguém ver meus bordados e tricôs com olhos de aprovação. Um ano sem sair do quarto e ver ela deitada na cama, na copa, dormindo. Um ano sem a moça que tomava conta dela, e que me ensinava a fazer enfeites nas unhas. Um ano que passou voando.

Um dia depois faz um ano que ela foi enterrada. E um ano que meu primo nasceu. Engraçado pensar que toda vez que eu olhar pra ele, no aniversário dele, vou lembrar que ela morreu. Morreu sem ver o neto que ela mais queria. Morreu sem olhar pro sorriso largo e fácil que ele dá, pro cabelo engraçado que ele tem.

A morte é só mais uma fase, e eu sei. É o fim, porque eu não acredito mais em nada depois. Eu acredito em hoje, em amanhã, mas não no depois. E sendo assim, as pessoas foram embora pra sempre. Talvez fosse mais reconfortante acreditar que eu encontraria elas de novo um dia, mas eu não consigo. Eles foram embora, e nada muda isso. Eu aceito, eu entendo. Mas aceitar e entender não torna menos doloroso.

Morte. Serve pra dar mais valor as pessoas. De preferência enquanto elas ainda estão aqui.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Mau humor.

Hoje eu acordei de mau humor. E meu irmão me irrita. E minha mãe me irrita. E a casa me irrita. E o tempo me irrita. E o celular me irrita. E os remédios me irritam, eu odeio tomar remédios. E a dor de cabeça me irrita. E os barulhos, e a televisão berrando, e meu padrasto surdo. Hoje eu acordei de mau humor e tudo que eu quero é fechar os olhos e acordar num campo florido, num dia de sol, com um vestido rodado e os pés descalços. Tudo que eu quero é deitar na grama e não me importar com as formigas mordendo minhas pernas.

Sem ter meu dia colorido, me contento com cigarros e uso o restinho de paciência contida em mim pra não levantar, pegar minha bolsa e sair.