terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Crônicas da Rua da Carioca I

Era bonita demais pro lugar. Um rosto extremamente belo, mas de aparência cansada. Tinha pra lá dos 40, usava um coque bem preso, os cabelos negros e lisos bem puxados pra trás. As feições orientais davam um ar grave a figura, mas o sorriso leve que dava aos passantes quebrava a primeira impressão. Era elegante, mesmo vestida de maneira simples.

Num boteco qualquer do centro um dia vi esta mulher. Fiquei imediatamente encantada, porque sua aparência destoava completamente do ambiente. Ela estava atrás do balcão, parei pra comprar uma água. Eu normalmente não reparo nas pessoas atrás de balcões, mesmo sendo simpática. Porque são todas costumeiramente iguais, e se não iguais, bastante parecidas. Mas ela não. Tinha cara de dona do bar, do quarteirão, do mundo. Tinha um rosto que definitivamente não se encaixava, e acho que nunca vou cansar de pensar e de falar isso. Ela era bela demais, refinada demais. Ela era demais para aquilo tudo.

Talvez se eu passar por lá de novo, naquele boteco da Rua da Carioca, ainda a veja por lá. Talvez ela sorria pra mim aquele sorriso simpático e acolhedor. Talvez eu tenha imaginado coisas demais sobre essa mulher, e não faça sentido algum eu escrever sobre ela tanto tempo depois. Porque essas impressões na realidade pairam a anos na minha cabeça. Só sei que hoje lembrei dela e precisei falar. Poucas pessoas na rua me impressionam. Poucas conseguem a façanha de ficarem marcadas na minha cabeça por tanto tempo, uma vez que minha memória é completamente debilitada.

Só sei que ela ficou. E acho que ficará pra sempre.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Só

Ele tem uma espécie de pureza nos olhos que me incomoda. Olha pra tudo com um olhar meio infantil, meio de sonho, contemplação. Usa um chapéu engraçado na cabeça, anda devagar, cabeça baixa. Fala baixa também, e uns sorrisos devagares. Tem um ar triste, triste que só, um ar de quem tem por dentro mais do que aparenta. Porque ele aparenta ser só tristeza, e talvez isso que me incomode. Não tem jeito de quem tem por aí muitos amigos ou amores. Tem jeito de quem tem apenas tristeza.

Eu não sei como ele vive, não faço idéia de se tem ou não família, filhos. Mas a minha mente viaja imaginando ele chegando na casa vazia, acendendo uma ou duas luzes, tomando um copo d'água. Comendo sozinho uma refeição, na mesa da cozinha, depois de cozinhar alguma coisa em porção única. Eu o imagino vendo tv, ou lendo um livro, ou ouvindo rádio, sozinho. Imagino a sensação de silêncio inviolável que paira pela casa, as paredes meio amareladas e a cama antiga no quarto. A cama onde ele se deita, sozinho, e vai vendo noite após noite passar.

Me lembro do primeiro dia em que falei com ele. De todas as pessoas falantes na mesa, ele era o mais calado. Como se o corpo estivesse ali, mas a mente estivesse viajando longe. Lembro que na foto que tirei ele ficou meio escondido atrás de alguém e não aparece, mas dá pra perceber que estava olhando pro nada. Comi do que ele ofereceu, repeti, dei atenção. Talvez por me sentir tão sozinha, por tanto tempo, eu sinta a solidão alheia. Talvez eu sinta a necessidade de afeto que emana de certas pessoas. Porque uns escolhem ser sozinhos, outros simplesmente se fecham, mesmo querendo se abrir. Mas existem terceiros que são simplesmente sós. Esses terceiros não tem escolha, nem opção. A simplicidade dessa solidão me comove, porque soa como uma não aceitação própria, que gera uma não aceitação dos outros.

Pode ser que eu esteja enganada, e que ele na realidade tenha milhares de amigos, saia muito, conheça muita gente. Pode ser que ele tenha uma família bonita e feliz. Mas eu duvido muito, não sei porque. A sensação de vínculo que a tristeza trás é sempre muito forte. Um triste reconhece um triste. Ao menos eu reconheço.

Só sei que nesse momento eu imagino ele lá, sozinho. E isso enche meus olhos de lágrima.

Resgatando IV

"Daqui do topo do mundo é mais difícil respirar. O ar se torna escasso, e vai ficando tudo embaçado pela neblina. Nessas horas começo a achar que caí, que acabou. Mas então percebo que não. Eu cheguei mais longe, estou num lugar mais alto. Eu olho pra baixo e vejo que eles, vivendo no chão, nunca vão ter a mesma clareza que eu, olhando daqui das nuvens.

Todo dia que acordo aqui, no topo do mundo, penso sobre isso. E disso tiro força pra respirar e continuar subindo"
29/04/08

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Eu não sei porque motivo um dia pensei estar no topo. Mas se estava, devia ser feliz. Hoje acho que sou feliz também, sendo uma das formiguinhas aqui embaixo. Vai ver estou ainda no topo e não sei. Vai ver um dia volto pra lá.

Resgatando III

"Infelizmente, a vida urbana faz com que a gente não possa dar tanta vazão a nossas vontades e ideais (pelo menos não a todos). Por isso trabalho, estudo, e espero um dia poder largar tudo e ir pro mato"
21/02/08

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É, ainda espero.

Resgatando II

"Nem sempre ligar o foda-se pro mundo é a melhor opção. Um dia você olha pra trás e vê que tudo que o foda-se fez foi destruir o que você construiu."
19/02/08

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Aprendi a duras penas essa lição. Ligar o foda-se pro mundo definitivamente não é a melhor opção. Lógico que tem horas em que não se pode ou não se deve falar exatamente o que se pensa. Mas mesmo nessas horas é melhor guardar pra si, matutar, e aí sim deixar passar. Porque quando você liga o foda-se atropela não só as suas opiniões como a de todos os outros pelo caminho. Acho que não faço mais isso. Acho que aprendi. Acho.

Resgatando

"Vontade de subir, descer, cair, se machucar, colocar um band-aid cor de rosa e sair pra correr de novo. Correr de olhos fechados, braços abertos e pés descalços, e conseguir encarar a vida assim também, de frente, com o pé no chão e a cabeça nas nuvens, estando aberto pro que der, vier, quiser, puder, pro que for e pro que não for. De braços abertos pra realidade, mas acreditando sempre no sonho. You had a bad day, mas a vida não termina, ela segue, e isso tudo segue, e você segue isso tudo, e por aí vamos nós. Porque os dias de fossa só servem pra você perceber nos outros dias o quanto você é capaz de amar. Talvez só não tenha encontrado ainda o modo certo. Talvez eu não tenha encontrado ainda o modo certo. So where is the passion when you need it the most?"
08/04/07

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Um dia eu tive vontade de viver intensamente. Eu fui e vivi. Eu corri de olhos fechados, tropecei e caí no chão. Me ralei toda. Me ralei e fiquei com uma dor de cabeça que parecia ser eterna. Uma dor que ia fundo e latejava até não poder mais. Mas eu continuei seguindo, vivendo, correndo e caindo. Até que um dia, viver intensamente se tornou simplesmente viver. A dor de cabeça passou e dela nunca mais ouvi falar. Daí eu percebi que intensidade é questão de ponto de vista. Uma coisa só é intensa quando é rara. A intensidade no dia-a-dia se torna banal. Ela vira cotidiano e parece ter ido embora. Mas não foi. Ela continua ali, só que perdeu a graça.

Améliepoulainizando.

Vou améliepoulainizar a minha vida. É disso que estou precisando. Colocar nela mais cores, aromas, sorrisos. Estou precisando ver de novo beleza em tudo, achar graça de tudo. Sair na rua rindo pros outros sem motivo, gostando do sol no rosto e da brisa bagunçando o cabelo. Eu preciso reencontrar com essa pessoa feliz e colorida que vive dentro de mim. Que é pra ver se assim o resto do mundo colore também. Estou cansada da maioria das coisas serem assim, tão cinzas.